Dos demônios ao tesouro do processo criativo
No trabalho criativo, nos deparamos constantemente com nossos demônios. Será que sou capaz? Será uma boa ideia? Quando aceitamos seguir em frente, apesar deles, surgem novas dúvidas: será que isso é bom? Será que estraguei a ideia inicial? Deveria seguir por outro caminho? E, mesmo quando o processo conclui, porque é preciso concluir, nos assombra a ideia da crítica, da rejeição, ou simplesmente de que ninguém vai gostar daquilo.
Ao longo dos anos, dedicada a processos de criação artística, a existência desses demônios ficou evidente pra mim. E o fato de ter que enfrentá-los, curiosamente, me fez enxergar o processo com admiração e curiosidade. Admiração porque o surgimento de algo novo é sempre um mistério. E a curiosidade surge por causa desse mistério.
A expressão artística, ou “a conexão com o princípio criativo que permeia tudo na vida” é, para C.G. Jung, uma forma de tornar-se são (JUNG apud KAST). A sanidade, nesse ponto de vista, é um estado de ser em que estamos mais inteiros, integrados. E paradoxalmente, estar mais inteiro implica necessariamente lidar com o vazio.
Porque não existe criação e integração sem esvaziamento. Precisamos liberar espaço para que o novo surja. E espaço, nesse caso, é inseparável do tempo. Se nosso tempo está preenchido por atividades, pensamentos e distrações, nunca estamos receptivos. E é preciso receber as ideias para dar-lhes vida.
A psicologia pressupõe ao menos duas camadas para a nossa psique - uma consciente e uma inconsciente. Carl Gustav Jung defendeu a ideia de que a consciência surge do inconsciente, ao contrário de Freud, cuja ideia de insconsciente está ligada a conteúdos reprimidos pelo consciente. O inconsciente nada mais é do que aquilo que não está consciente. O mistério. Se não está na consciência, nunca o entenderemos completamente. Porém podemos ouvir, sentir e captar suas nuances quando permitimos que nossas sementes criativas brotem. E para isso, é preciso abrir espaço na vida, com tempo de escuta.
Em um momento em que tudo se justifica pelo nível de produtividade ou lucratividade, até mesmo o ócio foi mercantilizado. Fazer nada se tornou um luxo, como se fosse privilégio para poucos. Mas o ócio criativo não é simplesmente o cessar de atividades. Envolve um olhar curioso para dentro. Envolve liberar o excesso de distrações e se entregar a momentos de tédio, em que nada acontece aparentemente e talvez as preocupações gritem. Envolve encarar e suportar a necessidade de acelerar quando se pausa, e deixar os demônios surgirem. E com eles, talvez um imenso vazio existencial.
Porque, enquanto estamos entregues ao ritmo de fora, do relógio, corremos o risco de permanecer apenas na superfície, o que pode ser produtivo para o mundo exterior, mas não permite o contato com o nosso íntimo. E quando sintonizamos com nosso próprio tempo interno, depois de abrir espaço para isso, corremos outro risco: o de mergulhar nas profundezas. É um risco porque nem sempre iremos amar o que encontramos ali. Porém é também um caminho para o grande tesouro da vida, a conexão com os mistérios da nossa alma, que farão algo de novo surgir. E este novo pode ser algo belo, sensível, que talvez nos oriente e traga novos sentidos para a vida que gostaríamos de viver.
Referência
KAST, Verena, A alma precisa de tempo. Petrópolis: Vozes, 2016