Astrologia como sistema simbólico
Astrologia e Psicologia
A aproximação entre astrologia e psicologia se fortalece quando ambas são entendidas como um meio de revelar e integrar a estrutura subjacente da realidade psíquica. Jung reconhece a importância da astrologia ao afirmar que “seu valor psicológico é inexorável, pois representa a soma de todo o conhecimento psicológico da Antiguidade” (JUNG; WILHELM, 2017, p. 15-16).
Neste contexto, adota-se a perspectiva do astrólogo e filósofo Dane Rudhyar, que define a astrologia como uma linguagem simbólica que “lida com um grupo complexo-dinâmico de símbolos formados da experiência comum da humanidade, conforme os seres humanos buscam entender, avaliar e facilitar as incessantes mudanças com as quais eles são confrontados” (1985 p.9). Para Rudhyar, os símbolos astrológicos refletem não apenas a psique individual, mas também padrões universais de ordem e transformação.
Complementando-se essa visão, Stephen Arroyo afirma que tais símbolos expressam simultaneamente a estrutura do macrocosmo e do microcosmo do homem, revelando um “plano global de simplicidade, ordem, elegância e forma que opera no universo inteiro e, em particular, em cada indivíduo” (ARROYO, 2013, p.22). A astrologia, assim compreendida, constitui uma linguagem arquetípica e energética que possibilita a leitura dos ritmos da vida em sintonia com os processos interiores do ser.
Astrologia como linguagem simbólica
Rudhyar enumera quatro tendências no século XX em relação ao conhecimento astrológico, sendo elas sua simplificação nas interpretações de horóscopos baseados na posição do Sol no horário de nascimento, a tentativa de tratá-la como ciência diante de novas descobertas astrológicas, o desejo de relacioná-la a doutrinas ‘esotéricas’ e finalmente o reconhecimento do seu caráter simbólico como forma de compreender a Natureza e, acima de tudo, da natureza humana (1993 p. 1-2). Ao fundamentar a astrologia pela ótica da compreensão humana, podemos expandir seu significado simbólico de forma a perceber quais contribuições ela oferece ao desenvolvimento psíquico do homem. Sobre o seu surgimento e desenvolvimento, Rudhyar comenta:
“A astrologia nasce da pungente necessidade de ordem que há em todos os homens. Os fenômenos celestes revelam essa ordem; e, usando essa ordem como uma fita métrica, um relógio, o homem estabelece uma relação entre ela e tudo o que acontece no íntimo e ao redor dele satisfazendo, assim, finalmente, seu ardente desejo de harmonia. Ele aprende a identificar a sua consciência e a sua vontade com os padrões e ritmos ‘celestes’. Ele se unifica com o princípio da ordem universal, a que muitos dão o nome de 'Deus'. E, vivendo ordenadamente, torna-se uma pessoa integrada: um homem de sabedoria. Embora as energias da sua própria natureza, ou da sociedade em guerra, possam golpear-lhe a consciência através das portas dos seus sentidos e dos seus sentimentos. Todavia, ele mesmo, como individualidade centralizada e integrada, está em paz. Pois, para ele, até mesmo a tempestade mais destrutiva tem o seu lugar e a sua função dentro da ordem do seu destino, ou do destino da humanidade. E por ‘destino’ ele entende: o todo completo de um ciclo de existência.” (RUDHYAR 1993 p.2)
De acordo com essa visão, a astrologia é fruto da busca do homem por ordem, harmonia e inteireza, o que o levou à observação do cosmos como um referencial para sua própria consciência. Observação esta que se dá na dimensão do espaço, pela organização e disposição de corpos celestes, e também na dimensão do tempo, à medida que este pode ser medido pelo ritmo com que os corpos celestes se movimentam. A astrologia trata, portanto, da correlação entre os fenômenos psíquicos, da ordem da consciência, e dos fenômenos celestes, situados em determinado tempo-espaço. É resultado então de uma observação ao mesmo tempo subjetiva e objetiva, que não opera por uma lógica de causa e efeito, mas pode ser compreendida a partir de uma “relatividade do tempo e do espaço condicionada psiquicamente”, que caracterizam o princípio de sincronicidade descrito por Jung como “acontecimentos simultâneos de conexão (...), ligados entre si sem causa aparente, mas que possuem caráter numinoso, ou seja, são percebidos de forma subjetiva como coincidências significativas por um ou mais observadores” (JUNG, 1984).
A astrologia, vista sob este ângulo, não prevê que o posicionamento e a movimentação dos astros causam ou influenciam os fenômenos da vida do homem, mas antes oferecem um plano simbólico que, se bem compreendido, joga luz nos acontecimentos do plano terrestre, por simultaneidade. Diz Jung que, embora não compreendamos o porquê desta ligação, “existe um princípio particular de sincronicidade ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só” (JUNG, 2017). A esse respeito, ele afirma:
“Não tenho dúvidas de levar seriamente em conta os fenômenos da sincronicidade que servem de base à astrologia. A alquimia tem uma eminente razão de ser psicológica, como provei fartamente, assim também a astrologia. Atualmente já não é de grande interesse saber em que medida essas duas áreas representam extravios, mas trata-se muito mais de examinar quais são as suas bases psicológicas.” (JUNG, 2016)
A relação entre o cosmos e a psique individual pode ser ilustrada ainda pelos preceitos herméticos no axioma “assim em cima como embaixo; assim embaixo, como em cima”. De acordo com esta filosofia, “há uma harmonia, uma afinidade e correspondência entre os diferentes planos de Manifestação, Vida e Existência". Embora esta divisão de dimensões seja de certa forma arbitrária e utilizada para fins de conveniência de pensamento, já que, “todas elas não são senão graus ascendentes da grande escala da Vida”, ela é didática na compreensão da existência dos fenômenos correspondentes cuja causa não é aparente ou se desconhece. (TRÊS INICIADOS).
Referências:
ARROYO, Stephen. Astrologia, psicologia e os quatro elementos. Uma abordagem astrológica ao nível da energia e seu uso nas artes de aconselhar e orientar. São Paulo: Pensamento, 2013
RUDHYAR, Dane. Ritmo do Zodíaco - O Pulsar da vida. Rio de janeiro: Alhambra, 1985
______A prática da astrologia como técnica de compreensão humana. 9.ed. São Paulo: Pensamento, 1993
______Tríptico Astrológico. 10.ed.
JUNG, Carl Gustav. Sincronicidade. Petrópolis: Vozes, 1984.
______Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2016.
______Os fundamentos da psicologia analítica. 5.ed. Petrópolis: Vozes, 2017.
JUNG, C.G.; WILHELM, R. O segredo da flor de ouro. Um livro de vida chinês. Petrópolis: Vozes, 2017. E-book.
TRÊS INICIADOS, O caibalion. Estudo da filosofia hermética do Antigo Egito e da Grécia. São Paulo, Pensamento Cultrix, 2021. E-book.